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segunda-feira, 19 de abril de 2010

Gabriela e seus dois amores:Jorge Amado e Dorival Caymmi

GABRIELA E SEUS DOIS AMORES: JORGE AMADO E DORIVAL CAYMMI




GABRIELA E SEUS DOIS AMORES: JORGE AMADO E DORIVAL CAYMMI

                                                                                                                                                                                                                  
                     Bruna Lago dourado*
Najara Alves Pereira 

Marielson Carvalho**   
                                                                                                                
                                                                                              
                                                                                                                                                          
Resumo: Este artigo propõe um estudo sobre a personagem Gabriela, no romance Gabriela, Cravo e Canela, de Jorge Amado e na canção Modinha para Gabriela de Dorival Caymmi. A partir desses dois gêneros textuais, busca-se analisar essa figura feminina, por meio de características como sensualidade, ingenuidade, simplicidade, desapego ao status social e bens materiais, liberdade sexual e afirmação de identidade. Através desses elementos, procura-se compreender quem é essa personagem e como essas características a fizeram símbolo da mulher baiana no imaginário popular.
 

Palavras-chave: Gabriela. Jorge Amado. Dorival Caymmi.


O cheiro de cravo
A cor de canela
Eu vim de longe
Vim vê Gabriela[1]

(moda da zona do cacau)
1.     Introdução

A partir de uma proximidade estética e temática entre Jorge Amado e Dorival Caymmi, busca-se neste artigo analisar uma personagem, de nome Gabriela, cujo sucesso difundiu-se por diversos lugares no mundo. Por meio desse estudo procura-se entender quem é essa personagem e como as suas características a fizeram símbolo da mulher baiana e, por extensão brasileira, no imaginário popular. Para isso, fez-se necessário à utilização do romance Gabriela, cravo e canela, de Jorge Amado e da canção Modinha para Gabriela, de Dorival Caymmi.
A obra de Jorge Amado, publicada em 1958, superou todas as expectativas por vender, em apenas duas semanas, 20 mil exemplares. Vencedora de cinco prêmios, o romance foi traduzido para 29 idiomas. Além disso, seu sucesso, de alcance extraliterário rendeu várias adaptações para a televisão, artes visuais e cinema. Sem falar, é claro, que a obra serviu de inspiração para diversas canções, entre elas Modinha para Gabriela.
Seu enredo se desenvolve na cidade de Ilhéus, em 1925. Ano de imenso progresso, resultado das profundas mudanças econômicas e políticas, garantidas pelo sucesso da colheita do cacau. Abriam-se ruas, construíam-se palacetes, instalavam-se bancos, fundavam-se clubes, transformavam o cenário da cidade. Mas, apesar de tanto desenvolvimento, os habitantes ilheenses conservavam costumes tradicionais. Vigoravam em Ilhéus o machismo e o paternalismo. Homens traídos tinham que lavar a honra com sangue. Além disso, a narrativa traz à tona disputa política entre Mundinho Falcão e o coronel Ramiro Bastos, o assassinato de dona Sinhazinha e o seu amante, o dentista Osmundo, pelo coronel Jesuíno Mendonça e a história de amor entre a mulata Gabriela e o dono do bar Vesúvio, Nacib.
No que se refere às adaptações, para a televisão foram duas. A primeira, no ano de 1960, pela TV Tupi, teve como protagonista a atriz Janete Vollu. Já a segunda, no ano de 1975, pela Rede Globo, conferiu grande sucesso para a atriz Sônia Braga, no papel de Gabriela. É notável a grande diferença entre as duas novelas, já que enquanto a primeira mostrou uma Gabriela branca, a segunda foi mais fiel à obra e levou para a tela, uma mulata, assim como a descrição de Jorge Amado na obra. Além disso, é importante destacar que na segunda adaptação a canção Modinha para Gabriela fez grande sucesso na época, como tema da novela.

2. A Gabriela de Jorge Amado

A personagem central da narrativa, Gabriela, que só aparece no fim do primeiro capítulo, é uma jovem sertaneja, que foge da seca com um grupo de retirantes para a cidade de Ilhéus, em busca de conseguir emprego como lavadeira ou cozinheira. Jorge Amado a apresenta:
Só Gabriela parecia não sentir a caminhada, seus pés como que deslizando pela picada muitas vezes aberta na hora a golpes de facão, na mata virgem, como se não existissem as pedras, os tocos, os cipós emaranhados.[2]

  O modo como autor faz a descrição da personagem, remete a forma que José de Alencar em seu romance Iracema (1998), utilizou para idealizar a índia tabajara, seja pela harmonia das personagens com a natureza ou ainda por possuírem a mesma cor, ambas são morenas.
        Mesmo vestida com trapos e coberta de poeira, devido à viagem, a personagem é descrita como alguém de corpo esguio, rosto sorridente e voz cariciosa. Além disso, a jovem desperta o interesse em clemente, outro retirante que se encontra no mesmo grupo que ela. Apesar de não conseguir esquecê-la, ele não a procura. É ela que, “com seu passo de dança e seus olhos de inocência[3]” entrega-se a ele. Mas, quando Clemente propõe relacionamento sério, ela não aceita, Gabriela não quer perder a liberdade.
       Assim que chega a Ilhéus, os retirantes ficam acampados no mercado de escravos, a fim de serem contratados pelos ricos coronéis da região. Nesse tempo, Nacib, em busca de uma cozinheira é levado para lá, onde conhece Gabriela e a contrata. De ímpeto, não repara na beleza da moça, por ainda está muito suja de poeira.
No entanto, após voltar para casa depois de um dia exaustivo de trabalho, Nacib encontra a empregada dormindo em uma cadeira, com seus cabelos longos, agora limpos, espalhados sobre os ombros. “Um rasgão na saia mostrava um pedaço da coxa cor de canela [...] Corpo de mulher jovem, feições de menina [...] Dela vinha um perfume de cravo [...]”4 .O árabe fica encantado com a beleza da mulata, tem vontade de se aproximar, mas “ela tinha um ar ingênuo, talvez até fosse moça donzela”5. Uma mistura de sensualidade e ao mesmo tempo ingenuidade foi o que Nacib enxergou. De fato, Gabriela carrega em toda obra essa ambigüidade.
Não tarda muito para que o encontro amoroso entre Gabriela e Nacib aconteça. Assim, após chegar em casa, sente o árabe uma vontade enorme de entregar o vestido e os chinelos que havia comprado para a ela. Viu a porta do quartinho dos fundos aberta, onde dormia a empregada. Resolveu entrar e, ao olhar para um pedaço da perna da mulata, ficou excitado. A jovem acorda:
Com a mão, instintivamente, procurou a coberta mas tudo que conseguiu – por acanhamento ou por malícia? – foi fazê-la escorregar da cama. Levantou-se a meio, ficou sentada, sorria tímida. Não buscava esconder o seio, agora visível ao luar [...] Ela sorria, era de medo ou era para encorajar? Tudo podia ser, ela perecia uma criança, as coxas e os seios à mostra como se não visse mal naquilo, como se nada soubesse daquelas  coisas, fosse toda inocência. 6[4]

Nacib, após ver sua nudez ressurgida pelo luar, não se contém e toma-a em seus braços. Segue-se daí por diante um relacionamento amoroso entre o árabe e a mulata.
Jorge Amado brinca com esse duplo sentido e instaura sob Gabriela, um olhar erótico e ao mesmo tempo ingênuo. Ainda sobre essa duplicidade, pode-se dizer que Gabriela possui o que Dorival Caymmi, em suas canções que representam a figura da mulher baiana, chamou de dengo. Em suas palavras:
Não sei de palavra tão bonita quanto o ‘dengo’. Dengo... Denguice... Dengosa... Palavras que dizem muita coisa, que definem, por vezes, a personalidade de uma mulher. O sol do nordeste, aquele calor das tardes pedindo rede e água de coco, pedindo cafuné e dando ao corpo certa moleza gostosa, produz o dengo, que por vezes está apenas no quebranto de um olhar, às vezes na modulação da voz terna, de súbito gesto como um convite. Não sei como definir certas mulheres senão pelo dengo que elas possuem.7

Para Francisco Bosco: “o dengo tem esse quê de infantil, entretanto misturado a uma sensualidade adulta e poderosa”8. A personagem Gabriela ora se apresenta como uma mulher com um poder de sedução inquestionável ora uma menina de atitudes inocentes: “Arrancou os sapatos, largou na calçada, correu pros meninos. De um lado Tuísca, de outro lado Rosinha. Rodando na praça, a cantar e a dançar”9. É certo que a personagem não gosta de dançar valsa ou tango, mas adora brincar com as crianças, dança e canta as cantigas de roda:

Palma, palma, palma
Pé, pé, pé
Roda, roda, roda,
Caranguejo peixe é.  10

Ainda sobre o dengo, Caymmi compôs um samba chamado “O dengo que a nega tem”, onde o compositor o coloca em praticamente todas as ações da mulher, como uma qualidade feminina:

É dengo, é dengo, é dengo, meu bem
É dengo que nega tem
Tem dengo no remelexo, meu bem
Tem dengo no falar também
Quando se diz que no falar tem dengo
Tem dengo, tem dengo, tem dengo tem.

Quando se diz que no andar tem dengo
Tem dengo, tem dengo, tem dengo tem
Quando se diz que no sorrir tem dengo
Tem dengo, tem dengo, tem dengo tem
Quando se diz que no sambar tem dengo
Tem dengo, tem dengo, tem dengo tem11

Assim como a mulher descrita no samba, Gabriela tem dengo na fala, no jeito de caminhar: “Uma voz cantada de nordestina [...] O balanço do corpo no andar” 12.
O fato de Gabriela ser ótima cozinheira ascende os negócios no bar de Nacib. Aliás, cozinhar bem e ser uma boa dona de casa tornam-se elementos que seduzem o árabe. Para Francesco Alberoni, na sedução feminina:
A mulher é artífice de uma continua transfiguração de si mesma e da casa. Qual haja sempre algo de novo, de agradável para si e para o amado. Algo que o faça exclamar: “que lindo, muito bem, que maravilha!”. Suscitar sempre novas emoções. Revitalizar o desejo no mesmo homem. Aquele homem que gostaria de se se esquecer dela, ou se esquece. 13 [5]

Nacib sente-se atraído não apenas pelo corpo ou o jogo de amor que o consume no leito, mas também pelo tempero de sua comida, pelo capricho em que prepara a casa, pela sensação de acolhimento que obtém ao lado de Gabriela.

Como arranjava tempo e forças para lavar a roupa, arrumar a casa – tão limpa nunca estivera! – cozinhar os tabuleiros para o bar, almoço e jantar para Nacib? Sem falar que à noite estava fresca e descansada, úmida de desejo, não se dando apenas mas tomando dele, jamais farta, sonolenta ou saciada. Parecia adivinhar o pensamento de Nacib, adiantava-se à suas vontades, reservava-lhe surpresas: certas comidas trabalhosas das quais ele gostava – pirão de caranguejo, vatapá, viúva de carneiro -, flores num copo ao lado de seu retrato na mesinha da sala de visitas, troco de dinheiro dado para fazer a feira, essa idéia de vir ajudar no bar.14 [6]

Não só Nacib é seduzido por Gabriela, mas, praticamente todos os homens que costumam freqüentar o bar passam a ir cada vez mais ao local para vê-la, saborear sua comida, fazer-lhe elogios e até mesmo propostas indecentes. O árabe sente ciúmes e medo de perdê-la: “O que acontecia era ser-lhe impossível imaginar uma noite sequer sem Gabriela, sem o calor de seu corpo”15. Esse sentimento leva-o a pedi-la em casamento, mesmo contra as tradições de sua família, que preserva os valores impostos pela sociedade. Sem dúvida, uma mulata, cozinheira, sem família não correspondia à representação de uma mulher ideal para se casar.
Talvez outro traço que chama bastante atenção em Gabriela seja o seu total desapego pelas coisas materiais e o gosto pelo trabalho. São qualidades fortíssimas na personagem a humildade e simplicidade. Há toda uma reflexão em suas atitudes no que se refere à recusa pelas coisas que lhes são oferecidas.

Estava contente com o que possuía, os vestidos de chita, a chinela, os brincos, o broche, uma pulseira, dos sapatos não gostava, apertavam-lhe os pés. Contente com o quintal, a cozinha e seu fogão, o quartinho onde dormia, a alegria quotidiana do bar com aqueles moços bonitos [...].16
 
           Gosta das chinelas, dos sapatos não. A não aceitação pelos sapatos é uma perfeita representação de recusa por uma vida luxuosa, com status social. “Gente nos trinques, mulheres enjoadas, gosto não [...] Dizia que ela era uma senhora, a senhora Saad. Não era não, era só Gabriela, de alta roda gostava não”17. Através da personagem, Jorge Amado faz uma crítica ao sistema capitalista.
É possível dizer que Gabriela é a típica representação do ideal erótico masculino. Alguém que não pede nada em troca do seu amor, nem coisas materiais, nem um compromisso que seja reconhecido socialmente, contenta-se com sua condição de amante. De acordo com Alberoni:

A mulher que encarna a fantasia erótica desresponsabiliza o homem do seu desejo. Não pede ao prazer compensações éticas. Se te agrado - esta é a sua mensagem – aqui estou, toma-me. Se queres ir embora, de mim não terás nem aborrecimento, nem queixas, nem súplicas, nem chantagens, nem lamentações. Não te terei prendido a mim por causa de filhos, mãe, parentes, irmãos. Não preciso do teu dinheiro. Não sou ciumenta, não guardo rancor. E, finalmente se quiseres voltar, aqui estou ás tuas ordens. 18. [7]
É certo que a mulata não quer casar: “Casar comigo? Por quê? Precisa não, dona Arminda, porque vai casar?”19; [8]não tem ciúmes: “Deitava com ela e as demais. Não se importava. Podia ir com outra”20; não pede nada em troca dos seus carinhos e mesmo quando dona Arminda a tenta: “Você é mais tola do que eu pensava. Seu Nacib podendo lhe dar de um tudo... Tá rico, seu Nacib! Se pedir seda, ele dá; se pedir moleca pra ajudar no trabalho, ele contrata logo duas; se pedir dinheiro, é o dinheiro que quiser, ele dá’’21; ela sempre responde: “Preciso não... Pra quê?” 22, e quando ele a procura, lá está ela a lhe servir: “Contente com seu Nacib. Era bom dormir com ele, a cabeça descansada em seu peito cabeludo, sentindo nas ancas o peso da perna do homem gordo e grande, um moço bonito” 23.
Além da sensualidade, ingenuidade, simplicidade e o desapego ao status social, já destacado, há outro elemento que caracteriza a personagem do romance e, sem dúvida, instaura outra perspectiva, que não a reduz as características já apresentadas. Trata-se da liberdade sexual de Gabriela. É nesse aspecto que a mulata revela não ser apenas um objeto de desejo, mas também um sujeito que age conforme suas vontades. Sobre esse novo olhar sob a personagem, Ricardo Ramos escreve:
Gabriela, no entanto vai muito mais fundo que a pele e a sensualidade. Gabriela não seria tão importante se fosse apenas um objeto sexual. Jorge Amado, entre outras coisas, escreveu em Gabriela um grande romance de liberação feminina.24

No capítulo titulado “Gabriela com pássaro preso”, o árabe Nacib presenteia a empregada com um pássaro, preso em uma gaiola. Aproveitando-se da situação, confessa o seu ciúme e a pede em casamento. É possível dizer que o pássaro simboliza a figura de Gabriela e a gaiola o pedido de casamento de Nacib. O momento em que a mulata abre à gaiola e liberta o pássaro significa o desejo em ser livre e não prender-se ao casamento. É como se o próprio título do capítulo sugerisse que se casando ela assumiria a condição de pássaro preso.
Apesar de aceitar a proposta de casamento e de amar o árabe Nacib, a mulata não perde a ânsia por liberdade:
Seu Nacib, tão grande, quem ia dizer? Mesmo na hora, falava língua de gringo, tinha ciúmes... Que engraçado! Não queria ofendê-lo, era homem tão bom! Tomaria cuidado, não queria magoá-lo. Só que não podia ficar sem sair de casa, sem ir à janela, sem andar na rua. De boca fechada, de riso apagado. Sem ouvir voz de homem, a respiração ofegante, o clarão dos seus olhos. Peça não seu Nacib, não posso fazer.25

Uma vez esposa de Nacib, ou senhora Saad, inicia-se um processo de mudança na vida da personagem, que é obrigada a se ajustar aos padrões da sociedade ilheense.
Não fale alto, é feio, cochichava-le no cinema. Sente-se direito, não estenda as pernas, feche os joelhos. Com esses sapatos, não. Bote os novos, para que tem? Ponha um vestido decente. Vamos hoje visitar a minha tia. Veja como se comporta [...]26[9]

Gabriela não consegue se habituar a nova vida de casada e perdi o ingrediente que a faz singular. A mulata não é mais a amante violenta e lasciva: “Apenas mudara na cama, como se aquelas discussões – nem chegava a ser brigas – e exigências refreassem seu ardor, contivessem seu desejo, esfriassem seu peito”27.
O não se habituar às novas regras e o desejo em ser livre ficam bastante evidenciados no momento em que a mulata comete o adultério. Gabriela trai sem medo de ser punida. Este aspecto marca uma profunda mudança na condição da personagem, que passa a agir como sujeito desejante e rompe com a idéia de mulher como propriedade do marido.
Nacib não a mata, como é de costume, apenas agride fisicamente e se separa da mulata. Sua honra não é afetada, visto que os documentos de Gabriela foram forjados para o casamento. O árabe sente sua falta, principalmente dos seus dotes culinários. Por isso, a contrata novamente e reata a parceria cama e mesa.
Definir quem é essa mulata, com cheiro de cravo e cor de canela não é tarefa fácil. Talvez a fala de um personagem, já em um dos últimos capítulos do romance se aproxime um pouco do que Gabriela representa: “[...] Gabriela é boa, generosa, impulsiva, pura. Dela podem-se enumerar qualidades e defeitos, explicá-la jamais. Faz o que ama, recusa-se ao que não lhe agrada. Não quero explicá-la. Para mim basta vê-la, saber que existe” 28·[10]
Mulata, sensual, trabalhadeira, espontânea, alegre, ingênua, simples, livre... Não há como negar que essas características dizem muito sobre a Bahia, ou melhor, mulher baiana. Gabriela ao reunir todos esses elementos torna-se um símbolo, um estereótipo que representa as mulheres baianas, brasileiras. O próprio autor em entrevista (1990) confessou: “Queria criar uma mulher que fosse o símbolo da mulher brasileira”29.

2. A Gabriela de Dorival Caymmi

O universo feminino de Caymmi se assemelha em muito com o de Jorge Amado. Em seus sambas, as mulheres possuem uma sensualidade poderosa, ao mesmo tempo em que são meigas e delicadas, em suma, dengosas. Homens e mulheres se relacionam eroticamente. Não há lugar para amor, compromisso e problemas. Tais mulheres são livres para desfilarem sua sensualidade por onde passam.
Talvez, devido a essa proximidade temática, Caymmi tenha resolvido compor a canção Modinha para Gabriela. Escrita para ser tema da abertura da novela Gabriela, pela Rede Globo de Televisão, em 1975, a canção foi interpretada pela cantora Gal Costa e alcançou enorme sucesso na época.
De linguagem clara, direta e coloquial, a modinha apresenta uma letra suscita e de fácil apreensão. Baseada na obra de Jorge Amado, a Gabriela de Caymmi possui praticamente todas as características da personagem do romance. De início, o compositor a apresenta como alguém que não conhecia nada do mundo, mas que se realiza por ser aquilo que simplesmente é: Gabriela.

Quando eu vim pra esse mundo,
Eu não atinava em nada,
Hoje eu sou Gabriela,
Gabriela iê, meus camaradas.

 Eu nasci assim,
 Eu cresci assim,
 E sou mesmo assim,
 Vou ser sempre assim,
 Gabriela, sempre Gabriela.

Quem me batizou,
Quem me nomeou,
Pouco me importou,
É assim que eu sou,
Gabriela sempre Gabriela

Eu sou sempre igual,
Não desejo o mau,
Amo o natural, etc. e tal,
Gabriela, sempre Gabriela.

Na segunda estrofe, é possível dizer que a personagem da modinha procura a todo o momento afirmar sua identidade. Gabriela não quer deixar de ser aquilo que ela é, e por mais que os outros não gostem do seu jeito, ela não se importa e afirma que vai ser sempre assim.
Esse desejo em querer ser sempre Gabriela, pode ser evidenciado na narrativa de Jorge Amado, no momento em que a mulata se casa com Nacib e precisa se transformar em uma esposa respeitável, na senhora Saad.  Sempre que Nacib dizia-lhe que agora não era mais uma simples empregada e sim uma senhora de posse, de representação, ela respondia: “Sou não, seu Nacib. Sou só Gabriela”30[11].Ser a senhora Saad significava para Gabriela uma verdadeira perda de identidade. Ela teria que ser outra pessoa, com outros costumes, viver de outra maneira a qual ela não gostava.
Na terceira estrofe é possível inferir que Gabriela, assim como na obra de Jorge Amado, é alguém sem família, sozinha no mundo, entregue ao seu próprio destino.
Já na quarta estrofe fica evidente o lado bom da personagem, incapaz de fazer mal a alguém. Mesmo no romance em que Gabriela comete adultério, não faz por maldade: “Nunca pensou ofendê-lo, jamais magoá-lo. Seu Nacib era bom, melhor não podia ser, no mundo não havia”31. Além disso, o verso: “amo o natural”, indica uma harmonia com a natureza. De fato, a mulata adora os animais, as flores, o sol a esquentar-lhe o seu corpo. É possível dizer que Gabriela é a típica representação do natural: “Era de natural risonha e brincalhona”32, seja por sua espontaneidade ou ainda por agir conforme os seus instintos.
Ainda sobre a quarta estrofe, o primeiro verso: Eu sou sempre igual”, associa-se a figura da personagem que se mantêm de maneira irredutível com a ânsia de ser sempre a mesma, livre, dona de si, mesmo com tantas mudanças sendo-lhe impostas após o casamento:

Pra calçar os sapatos era um inferno. Para não falar alto no cinema, não mostrar intimidade com as empregadas, não rir debochada, como antes, para cada freguês do bar encontrado por acaso.  Para não usar, quando saiam a passear, a rosa atrás da orelha! Deixar conferência por um circo mais mambembe[...] 33[12]


Considerações Finais

Não há como negar que tanto Jorge amado como Dorival Caymmi foram responsáveis por construir e difundir uma “certa” imagem sobre a Bahia, ou melhor, mulher baiana.  Gabriela é, em suma, essa representação. Não se pode negar ainda o sucesso e as vantagens que a propagação dessa imagem adquiriu e como ela se tornou tão popular. Ao longo do tempo, o nome Gabriela passou a ser utilizado para denominar restaurantes, bares, bebidas a base de cravo e canela e empresas de turismo, etc.
O estereótipo de mulher mulata, fogosa, sensual e alegre é freqüentemente utilizado pela mídia como meio de atrair turistas para a Bahia. Não há dúvidas de que muitos que não conhecem o estado vão para lá com a esperança de encontrar Gabrielas espalhadas por seus vários cantos.
É importante alertar para os problemas que o uso dessa imagem pode acarretar. A mulher baiana não pode ficar restrita a essa representação construída por Jorge Amado e Dorival Caymmi. Nem todas as baianas são mulatas, belas, fogosas e sexualmente disponíveis. Quando se reduz a imagem de um lugar, ou pessoas desse lugar a um estereotipo, as diferenças são esquecidas e uma identidade falsa é construída.



Referências


ALBERONI, Francesco. O erotismo. 5. ed. São Paulo: Rocco, 1988.


ALVES, Ivia; et al. Leituras Amadianas. Salvador: Quarteto/ Casa de Jorge Amado, 2007.


AMADO, Jorge. Gabriela, Cravo e Canela: crônicas de uma cidade do interior. 89. ed. Rio de Janeiro: Record, 2004.


BOSCO, Francisco. Dorival Caymmi. São Paulo: Publifolha, 2006.


DUARTE, Eduardo de Assis. “Classe, gênero, etnia: povo e público na ficção de Jorge Amado”. In: Cadernos de Literatura Brasileira: Jorge Amado. São Paulo: Institito Moreira Salles, 1997. P. 88 a 97.


GOLDSTEIN, Ilana seltzer. O Brasil Best Seller de Jorge Amado: Literatura e Identidade Nacional. São Paulo: Senac, 2003.


GOLDSTEIN, Ilana seltzer; SCHWARC, Lilia Moritz. Cadernos de Leituras: o universo de Jorge Amado. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.


GOLDSTEIN, Norma Seltzer (org.). Cadernos de Leituras: a literatura de Jorge Amado. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.







* Docentes do curso de Letras, turma 2008.2, Universidade do Estado da Bahia - Departamento de Ciências Humanas e Tecnológicas - Campus XVI – Irecê - BA.
**Professor Orientador
¹AMADO Jorge. Gabriela, Cravo e Canela. 89. Ed. Rio de Janeiro: Record, 2004.
2AMADO, Jorge, 2004, p. 77.
3Idem, 2004, p. 79.
4Idem, 2004, pp. 126.7.
5Idem, 2004, p.127.

6Idem, 2004, p. 144.
7BOSCO, Francisco, 2006, p. 30.
8Idem, 2006, p. 30.
9 AMADO, Jorge, 2004, p. 228··
10 Idem, 2004, p. 228.

11Canção encontrada no disco “Eu não tenho onde morar – Dorival Caymmi”, lançado em 1960. BOSCO, 2006, p. 30.
12AMADO, Jorge, 2004, p. 127.
13ALBERONI, Francesco, 1986, p. 43.
14AMADO, Jorge, 2004, p. 166.




15 Idem, 2004, p. 199.
16 Idem, 2004, p. 183.
17AMADO, Jorge, 2004, PP.254.6.
18ALBERONI, Francesco, 1988, p. 61.



19Idem, 2004, p. 181.
20Idem, 2004, p. 204.
21Idem, 2004, p. 181.
22Idem, 2004, p. 181.
23Idem, 2004, p. 183.
24RAMOS apud ALVES, 2007, p. 80.

25AMADO, Jorge, 2004, p.204.
26Idem, 2004, p. 289.
27 AMADO, Jorge, 2004, p. 289.



28 AMADO, Jorge, 2004, p. 319.
29 GOLDSTEIN, Ilana, 2009.


30 AMADO, Jorge, 2004, p. 237
31 Idem, 2004, p. 293

32 Idem, 2004, p. 79
33 Idem, 2004, p. 255



3 comentários:

  1. Meu Deus, como eu amo a Bahia!
    Terra de Jorge Amado, Dorival Caymmi e a linda
    e inteligente Najhara.
    Dissecar, não um corpo morto mas um romance vivo, dando nuances de atualidade convicta
    Faz-nos acreditar que todas as Najharas da Bahia são Gabrielas do Brasil.
    PARABÉNS!

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  2. Um brinde a todas nós Gabrielaaaasssssss!!! Valeu muito mais do que os dezzz!!!!
    Parabéns!!!

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  3. Uma das mais belas apresentações de SIPE que já pude presenciar...amei...PARABÉNS

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